O Louro
Na minha casa teve a história de um papagaio que sumiu.
Sumiu não, né. Minha mãe jura que roubaram ele.
O Louro, de humilde e simplório nome, era uma figura extraordinária! Cantava Ilare lare êh da Xuxa e Fuscão Preto, sem desafinar — completava sempre minha mãe. E tinha aprendido a chamar o Rafael, meu irmão mais velho e único filho naquele momento, a que viesse pra casa porque meu pai tava chegando.
Um dia apareceu um homem num carro de bacana, estacionou na porta de casa e, sem reservas, lhe perguntou:
— Quanto a senhora quer pelo papagaio?
Ele havia escutado talvez de outro dia, e ainda por cima o Louro, ao vê-lo chegar, avisou:
— “Oh, Mariii-a! Mari-aaa, chegou visi-ta!”
Minha mãe disse que riu inocente e respondeu:
— Ihhh, moço, esse papagaio aqui é igual Maroca: num se dá, num se vende e nem se troca!
O homem insistiu, disse que ela dissesse um preço, que tudo tinha seu preço. Mas minha mãe manteve-se firme e decretou:
— O papagaio não tá à venda, moço, e o senhor vai dando licença da porta da minha casa, por favor.
No outro dia, com um pressentimento estranho, minha mãe levantou e encontrou-se com o puleiro do Louro vazio. Ela tentou buscar. Por dias, perguntou por todo lado, mas não teve jeito.
“Aquele Louro valia outro!”, dizia minha mãe sempre que contava essa história. E, com meus irmãos, criávamos hipóteses do que teria acontecido com o Louro. Minha favorita era a de que o Louro tinha sido levado para um programa de televisão, que talvez, ele tivesse até ficado famoso! E, apesar de nunca ter escutado mais do que minha mãe imitando o Louro, sempre tive um fascínio por ele.
Talvez pelo fascínio com que minha mãe contava do Louro, onde geralmente terminava assim:
— Ah, menino… você quer ver um papagaio falador, você tinha que ter visto o Louro que eu tive lá no Maranhão e que roubaram meu bichinho… — com um sorriso torcido.
E finaliza sempre igual:
— Igual aquele, eu nunca mais vi!
Eu ficava triste por minha mãe. Dava pra ver que ela sentia a perda do louro como se fosse ontem. E talvez por isso, seu relato parecia sempre tão atual, me deixando igualmente curiosa cada vez que o ouvia.
Hoje, sabendo que os papagaios podem viver mais de 60 anos, gosto de pensar que o louro segue vivo, mais afinado do que nunca e cantando a plenos pulmões os sucessos que lhe foram destinados!
Comentários
Postar um comentário