Seu Leandro, Boca-rota
Quando cheguei ao bairro, fiz questão de cumprimentar meus vizinhos. Não tive a audácia de bater na porta e levar bolo, mas, quando se deu a oportunidade, me apresentei formalmente. Sou dessas, à moda antiga. E, como diz o famoso rap do CL Aparecida, lá de onde eu vim: “tem que saber chegar”.
Sempre o via por ali, na rua, se arrastando com sua bengala ou sentado numa cadeira de plástico na calçada, cuidando do estacionamento que havia inaugurado na porta de sua casa, e que dividia parede com a minha. Três latas de tinta cheias de cimento duro, sustentando barras de ferro, delimitavam a vaga e eram removidas a cada novo cliente. Vivíamos em dois casarões antigos de porta pra rua — e que talvez um dia tivessem sido apenas um, desconfio — localizados na rua Duque de Caxias, a mais ventilada de Vila Isabel!
No princípio, Seu Leandro parecia só mais um velho velhaco. Mas não demorou muito pra que eu me desse conta: o maldito adorava se colocar em contra. Tinha um prazer em maldizer as coisas. E, ainda por cima, falava todo enrolado, enquanto tentava equilibrar as palavras e a dentadura frouxa que rodava dum lado pro outro nos cantos da boca-rota.
Na maioria das vezes, eu perdia de 20 a 30% do que ele dizia, parte porque não entendia e outra parte porque a horripilante dança da dentadura de Seu Leandro Boca-rota era um paradoxo visual: eu não queria ver, mas não podia deixar de olhar. Talvez pra me proteger, tento encontrar explicação, já que, em algumas palavras, a bicha parecia que fazia um giro completo e, por pouco, não escapava.
E o pior: era daqueles que te seguram na conversa. Impossíveis de desvencilhar. Eu sei que você sabe e que conhece um desses. Pois bem, Seu Leandro era aquele vizinho que não pede licença pra iniciar uma conversa. Disparava, com unhas e dentes — literalmente — qualquer asneira que lhe dava na telha.
Como na final da Libertadores, onde o Flamengo saiu tetracampeão. Como era de praxe, a galera iria se reunir no Escondidinho pra ver o jogo, e encontramos Seu Leandro entrando em casa quando chegamos da feira. Boca-rota, como era de se esperar, azedou o convite. Por educação, perguntei se ele veria o jogo no Escondidinho. Pra quê?... Me agarrou ali e começou a dizer que “ele mesmo? Ficar sentado num ‘bar de esquina’? ‘Isso você não vai, minha filha, eu não gosto’, decretou. ‘Tá certo, Seu Leandro, eu já gosto, viu’”, tentei me unir ao jogo de Seu Leandro, ficando em contra dele. Mas esqueci que o velho era um especialista.
Seu Leandro sabia pesar o clima como ninguém. Era daquele tipo de pessoa que não pode ver um feliz e sereno. Com sua boca-rota, não economizava na morbidez e me disparou chumbo:
“Faz 30 anos, você tinha prazer de sentar num bar, vish, eu tinha maior prazer! Hoje, vai sentar num bar assim pra você ver, vai… Vem um ali, matar fulano, e você sai de lá CRAVEJADA DE BALA! Morre bem ali por estar em bar de esquina. Eu? Em bar de esquina? Nãmmmm, minha filha.”
Ana tinha sido mais rápida e me deixou ali, com um pé no primeiro degrau e as sacolas na mão, até que eu conseguisse me livrar da boca-rota e entrar em casa, finalmente. Como se não bastasse, o maldito azedo queria azedar até o Flamengo, dizendo que, se ganhasse, ia ser festa, mas se perdesse, ia ser quebradeira, confusão. Foi nesse momento que consegui entrar e respirei aliviada. Que velho amargo! Râncio, como dizem na Argentina.
Apesar da boca-rota de Seu Leandro, ver a partida no Escondidinho foi demais! Foi também um ritual de passagem. Nessa noite, segundo disseram Sérgio, o DJ, e Paulinho, o cozinheiro, nós demos sorte. Somos pé-quente e teríamos que voltar na quarta, quando o Flamengo jogaria de novo pela final do Nacional. Também foi nessa noite que tive os primeiros indícios de que, realmente, havia muita história no Escondidinho. Personagens que estavam ali há 13, 18… e até mesmo 40 anos! Como Dona Célia, que chegou de táxi no segundo tempo.
No dia seguinte veio a confirmação e toda a inspiração pro meu primeiro livro, há tanto tempo sonhado! A ideia surgiu, considero, em formato de chamado espiritual, inspiração divina que nos deixou fisicamente agitadas — pra não dizer eufóricas. Eu me sentia queimando por dentro, tal como havia lido alguns artistas descreverem o que se sente nesse momento de inspiração, quando eles sabem que estão diante de algo grande.
Foi também neste dia que fomos à missa e me senti mais conectada com Deus do que jamais havia me permitido estar. Saí de lá impactada. Eu e Ana, que horas antes havia sido testemunha do furor que me invadiu quando entendi que tudo estava alinhado, e que a história do Jesus Cristo de Vila Isabel, vulgo Perna, e seus amigos do Escondidinho, tinha que ser contada.
A noite estava decidida: iria me tomar os próximos 27 dias para escrever profissionalmente, o que basicamente significava estabelecer uma rotina. A história que eu tinha era muito boa para ser desperdiçada, tal como tantas outras histórias de tantos personagens que me cruzaram na vida e que deixei passar.
Na segunda-feira, ao sair de casa às 11 da manhã, fui assediada com um comentário obsceno de Seu Leandro e me martirizei o dia todo por não haver reagido na hora. Apesar da personalidade indigesta do velho, sempre o tratei com respeito e ali, sentado no Escondidinho, no bar de esquina que ele disse dois dias atrás que eu jamais o veria, eu não só o vi como tive que ouvir, se oferecendo para me fazer o “exame do toque”, quando, para me desvencilhar dele desta vez, disse que estava com pressa porque tinha uma consulta.
Fiquei doente de raiva o resto do dia. O Jesus Cristo de Vila Isabel, pelo visto, não tinha vindo só, e agora que eu o havia descoberto e aceito, o mal achou oportuno me visitar. Me tentar. Me tirar do foco. O maldito Boca-rota havia feito de novo, e havia conseguido me ocupar a cabeça o dia inteiro, pensando nas mil maneiras que eu iria dizer tudo que ele merece ouvir na próxima vez que o encontrasse.
Ao final da tarde, liguei pra Ana, que recordou não apenas o compromisso de manter a tradição do bem, como fazia o Perna, em seu Natal comunitário, mas também que o mal existe e vai tentar nos distrair. Graças a ela e ao seu conselho angelical, abandonei o desejo de vingança a seu modo. Talvez nem dissesse mais nada ao infeliz. Escrever sobre sua boca-rota e deixar aqui registrados os desagrados dos diálogos forçados que nos metia goela abaixo, parecia suficiente por enquanto.
Como se não bastasse, me lembrei que, logo cedo, tomando café, a primeira leitura do dia que fiz foi da tentação que Jesus sofreu no deserto, pouco antes de começar a evangelizar e anunciar a boa nova.
A gente precisa estar muito atento e fortalecido, realmente, como disse o padre domingo, quando anunciava a segunda volta de Jesus coroado. Era preciso confessar nossos pecados, e por isso confesso aqui os meus e também os de Seu Leandro. Confesso que pensei o dia todo nas variadas maneiras de me vingar dele, e que algumas incluíam até mesmo uns belos sopapos na sua boca-rota. Pensei em dar-lhe com os cinco dedos da mão aberta na cara, de modo que a asquerosa dentadura voasse longe! E, sem perceber, dei lugar pra que o mal fizesse morada e ocupasse minha mente o dia inteiro. O mal é mais inteligente do que pensamos e nos conhece mais do que imaginamos.
Enquanto escrevia sobre as canalhices do velho, me surpreendi com uma crise de riso daquelas de doer a barriga, e minha raiva foi sendo transmutada. Que personagem, Seu Leandro Boca-rota!
Agora também ia ser naquele esquema: bom dia, boa tarde, boa noite, quando não apenas um gesto com a cabeça. Tem gente que confunde respeito com intimidade; ainda que tardia, haveria a conversa final, iniciada e terminada por mim desta vez, sem chance para bocarrotices.
Seria pá, pum. LIMITE! Até aqui você chegou, Seu Leandro, e daqui não passa.
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