Dona Ester

Chegamos bem cedo, como recomendaram, e já havia muita gente. Mas bem menos do que imaginei, confesso.

Enquanto esperávamos na fila do hospital da Gamboa, araras jogaram pedras em nós e riam — pasmem! Rimos todos juntos, suavizando o peso da espera e o frio das primeiras horas do dia. 

Foi então que conheci Dona Ester.

Criada pelos avós, ficou sem eles aos 15 anos. Não escrevia bem, mas tinha um orgulho imenso dos netos — um deles com três faculdades. Tinha uma plantação de “peixinho” só para o neto vegano e levava comida para ele na faculdade todos os dias.

Constrangida, pediu minha ajuda para preencher o termo de consentimento e me disse, quase em desculpa, que “não estudou”.

Enquanto segurava a caneta com esforço, revelou que “tinha tantos sonhos” e que “queria ter sido alguém”.

Dona Ester trabalhou 30 anos como copeira de um hospital importante, cargo que conseguiu — segundo suas próprias palavras, “com essa burrice toda” — ao ser aprovada em um exame de ingresso.

Tinha 74 anos, canceriana — vi em seu RG. Ajudei-a soletrando a palavra “Outubro” e o ano: 2025.

— Dois, zero, dois, cinco.

Disse a ela que ela era alguém. Que tudo o que seus filhos e netos conquistaram também era mérito dela, que dedicou toda a vida para que eles tivessem as oportunidades que lhe foram negadas.

Ela concordou, como quem finalmente reconhece o herculismo da própria dedicação silenciosa.

Contei também que havia visto a notícia de uma senhora de 87 anos que se formou em Direito.

Ela olhou adiante, como se imaginasse a cena, e confessou:

— Era isso que eu queria… fazer uma faculdade.

Enquanto dizia isso, vi em seu rosto um sorriso triste, nostálgico — como quem sente saudade do que nunca viveu.

Tentei alentá-la. Disse que fizesse pelo prazer de fazer, sem pensar no fim do trajeto, mas no gosto da caminhada, na experiência de sentir como é.

Então, um sorriso mais esperançoso tomou lugar em sua expressão.

Contou que seu neto — o vegano — disse que a ajudaria. 

(E ai dele se não! pensei)

Segundo ela, ele a incentivava sempre.

Dona Ester Pacheco dos Santos, nascida no Rio de Janeiro em algum dia de julho de 1951. Órfã duas vezes. Dedicou a vida inteira a ser mãe: primeiro dos irmãos, depois dos filhos e, por fim, dos netos.

Estava agora ali, sozinha, prestes a fazer um procedimento cirúrgico, diante de um termo de consentimento que não conseguia entender.

— Ainda bem que você tá aqui pra me ajudar — me disse.

Ah, Dona Ester… ainda bem que Deus me deu a oportunidade de fazê-lo, pensei. E que minha mãe me deu a oportunidade de estudar.

Para contar sua história.

A história de alguém que jamais esquecerei e que espero que seja lembrada, honrada e admirada por cada pessoa que tenha o privilégio de saber ler, escrever e sonhar.

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