O cara no ônibus
Era uma manhã de domingo e este era o cenário.
Eu estava voltando para casa e esperava o ônibus, enquanto o sol de Goiânia já incomodava bem antes do meio-dia. As pessoas fizeram uma fila e educadamente entraram no ônibus. As coisas não eram bem assim no antigo terminal, pensei.
Foi então que notei aquele cara, com uma camisa de mangas curtas, jeans grosso e maleta. Eu me sentei ao lado da janela e abri meu livro. Bukowski numa manhã de domingo. E adivinha: o cara sentou comigo.
Não foi preciso virar o pescoço para perceber que ele lia Admirável Mundo Novo, uma versão de bolso com páginas amarelas. Ele erguia alto o livrinho, mais alto do que o necessário. Pensei comigo: “Ele quer mostrar que ta lendo Aldous Huxley”.
Continuei a leitura ouvindo minhas músicas no volume máximo, como sempre. Não que eu seja algum tipo de vidente, mas era óbvio que o cara ia puxar papo — e não demorou muito. Pelo canto do olho eu percebi que seu rosto estava voltado em minha direção e os lábios se mexiam.
- O quê? — Tirei os fones e perguntei.
- Você já leu esse?
- Já.
Eu pensei em dizer “duas vezes”, mas achei que aquilo fosse soar muito rude, apesar de ser verdade e coloquei meus fones.
- O quê? — De novo.
- Você deve gostar de arte né? — Ele me perguntou.
- Sim, mas não entendo muito. Não sou culta.
Dessa vez eu havia retirado somente um fone, o do lado esquerdo onde ele estava sentado. Então não compreendi muito bem, mas ele falou algo sobre a profissão dele. Designer gráfico, e emendou dizendo que aquela era a música preferida dele (a que soava alto pelo fone retirado).
- De quem? MGMT? — Perguntei.
- AHAM! respondeu com emoção.
Pensei comigo: “Um cara de meia idade, com uma camisa de mangas curtas e jeans grosso, apontando sinais de calvície, com uma maleta na mão, gosta de MGMT. Ok”
Percebi que ele estava com aquele sinal de impaciência quando surge o pressentimento de que o assunto vai morrer. Abriu a maleta, guardou o livro, pegou a carteira e tirou de lá um cartão da empresa onde trabalhava. Disse algo como “são todas pessoas que gostam das mesmas coisas que você, tem a mesma linha de pensamento…” e exibiu um sorrisinho. Não entendi direito o que ele quis dizer ou o que diabos eu tinha a ver com as pessoas que gostam das mesmas coisas que eu e só respondi “ok”. Coloquei o cartão dentro do livro enquanto ele já estava lendo uma revista de tecnologia. Minha parada era a próxima.
Levantei, e achei que fosse educado dizer um tchau. Então disse e ele retribuiu com um sorriso que parecia ser de gratidão. No momento eu pensei isso. Gratidão por eu pelo menos ter ouvido o que ele disse, por ter respondido meia dúzia de palavras e pelo tchau.
Nos primeiros passos pela rua acho que senti algo parecido com culpa, pela forma como tratei o cara. As pessoas são tão sozinhas — pensei comigo.
Mas que se foda, ta todo mundo na mesma merda, até eu.
Entrei numa loja de conveniência, comprei um maço de cigarros e nem lembrava mais do cara.
Esse texto foi escrito em num domingo 23 (como a música) em janeiro de 2011.
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