Verbo Régia
Passei a escrever tudo, compulsivamente, verborragicamente.
é o único que eu podia fazer, então me rendi. gostava mesmo de escrever, qualquer coisa,
ver a palavra aparecer,
na tela, no papel, na umidade da janela, eu escrevia, e relia e relia.
a parte havia isso, o vício da releitura. eu relia copiosamente o que eu escrevi e nunca publicava nada. eu era minha única leitora. uma grande fã, confesso. sempre achei que o que eu escrevia era bom, era grande. e, porque era extremamente simples, eu sabia que poderia mudar o mundo de alguém, como alguns versos simples e curtíssimos de alguns escritores, que me marcaram pra sempre e seguem ressoando como cuencos tibetanos:
“a felicidade é uma responsabilidade muito grande, pouca gente tem coragem”
e depois, ainda por cima, foi aquilo.
nao conseguia mais trabalhar, ocupava horas de trabalho pago com o exaustivo e viciante hábito de abrir um bloco de notas ou google docs e derramar tudo ali, gratuitamente e sem garantias de qualquer retribuição ou mesmo leitura, além da própria.
eu estava em dívida com Deus, que me deu o dom da escrita, como sempre me disseram.
Agora tinha que escrever, escrever e escrever.
por todas as cartas que queimei, tinha que escrever outras três. Cada diário que rasguei, exigiam agora uma revisão detalhada de acontecimentos corriqueiros, como aquela vez em que meu pai me deu um sapato de cravinho e eu sabia que todo mundo ia zombar de mim. Passei a aula toda com os pés dobrados por debaixo da cadeira, queria virá-los, como o próprio curupira, rezando pra que ninguém visse aquela aberração. No final, ninguém deu bola pro meu sapato de cravinhos, mas aquela vergonha, ficou cravada na memória. Eu tinha 6 anos.
(continua...)
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