Um relato sobre hipnose guiada
sobre o que eu queria escrever mesmo? devo ter anotado em algum papel. to me acostumando com isso de escrever com teclas. estas são frias e macias, e para não perder o romantismo, poderia dizer que têm um toque suave de cetim.
estou sentada diante de uma janela grande, escrevendo confortavelmente desde meu estúdio. tal qual me havia dito o hipnotizador que contratei para ... para, me hipnotizar, certo. sim. hipnotizar,
na verdade. lembrei. era uma hipnose guiada.
pera la né? tampouco era hipnose nooose. era uma hipnosezinha. guiada. coisa segura.
pois bem, comprei a membresia. um áudio por mês de uma hipnose guiada e personalizada, com a voz de veludo doce do Julián Alborná, um garoto mexicano, que tem ótimos anúncios no Instagram e te oferece um método para viver aquilo que você mais deseja em sua vida, primeiro, através de visualizações hipnóticas.
ok. eu ri, você riu e lendo assim em voz alta, sei. soa ridículo.
você deve estar pensando "ta loca" ou "agora ela foi longe demais".
acontece que desde que mudei os móveis de lugar, tornando meu antigo quarto em um estúdio (nome chique, adoro pensar que tenho um estúdio. só de imaginar alguém dizendo "a Regina? tá no estúdio", eu dou risada). bem, voltando ao estúdio. desde que fiz desse cômodo meu estúdio, voltei a pensar nesse momento em Buenos Aires, onde decidi que queria ser uma escritora reconhecida mundialmente e estava disposta a abandonar tudo que construí pra embarcar numa viagem de regresso ao meu país, idioma e também a esse sonho de criança.
foi também nesse momento, 1 mês antes pra ser mais exata, em que começaram a me aparecer as publicidades do tal Julián voz de veludo com seus anúncios irresistíveis. 20 segundos de loucura e fé cega, e lá estava eu, com uma assinatura paga em euros e um sonho.
alguns dias depois, me chegou o e-mail que dizia
"
Tu HIPNOSIS ya está lista"
me preparei toda. banho tomado, luz cálida, incenso, headphones e um pouco nervosa me deitei pra escutar. era um áudio de 26 minutos, metade dele com exercícios de respiração pra entrar no tal estado hipnótico. lá pela segunda metade do áudio, após descer uma escada de 5 degraus, dizia que eu:
"ia entrar em um quarto que pareceria ser um quarto de escritura acolhedor com uma escrivaninha de madeira frente a uma janela grande, por onde entraria a brisa da manhã e o sol das primeiras horas do dia. Sobre ela, um laptop".
e de olhos fechados tentando deixar-me ser hipnotizada e acreditar que havia investido bem meus 20 euros... julguei:
eu havia pensado em um caderno.
lembro que não gostei dessa parte quando o ouvi pela primeira vez. decepcionada e um pouco menos hipnotizada, pensei:
- poxa, por que ele não disse caderno?
mas não. ele disse laptop. tampouco máquina de escrever. laptop foi a palavra que ele escolheu.
um laptop sobre um escritório de madeira frente a uma janela grande por onde entraria a luz das primeiras horas da manhã e suas promessas de novas histórias por contar.
ouvi a tal hipnose um par de vezes mais e cancelei a membresia, um pouco enfadada comigo mesma e com a estupidez do que havia feito. que loucura! assinar um serviço de hipnose guiada e pagar por isso em euros! realmente eu havia ido longe demais. então me trouxe de volta, 1, 2, 3 despertando.
mal sabia eu, que meses após escutar aquele áudio por primeira vez, estaria aqui, olhando o cursor do laptop piscar, como ele havia dito que olharia. escrevendo minhas histórias nas primeiras horas do dia, tal como ele havia dito que eu faria. e anotando em uma singela "libreta de notas" as inspirações surgidas da vista que tenho desde uma janela grande, tal como ele descreveu que aconteceria e que eu, arrogantemente, recusei.
através dessa janela agora, vejo um emaranhado de fios de energia e penso nos anos de conexões e desconexões, das chegadas e partidas, pedidos de instalação e cancelamento.
como o que fiz hoje de manhã e que deixará mais um cabo cortado nesse bolo doido, que ninguém sabe onde começa ou termina.
Vislumbro assim, a inspiração obtida de uma cena tão urbana e me fundo as centenas de vidas que aconteceram aqui, nesta casa histórica, localizada numa rua mais ou menos tranquila, no bairro de Vila Isabel, Rio de Janeiro. cidade que escolhi pra viver e escrever e que, - pasmem - foi escolhida este ano para ser a Capital Mundial do Livro! É mole?
Talvez esse texto nunca chegue ao Julián. Pra ser honesta, o mais provável é que chegue minha solicitação de reativar assinatura. No fim das contas, acho que foram os 20 euros mais bem gastos da minha vida.
O áudio seguia com visualizações que, todavia, não se materializaram, mas que agora, me atrevo a pensar que é questão de tempo, trabalho e hipnose guiada.
E sem dúvidas, um pouquinho mais de fé.
Comentários
Postar um comentário